terça-feira, 19 de março de 2013

Relatos da Carol..Uma mãe de anjo - parte 4!!!

Quem perdeu as 3 primeiras parte clique aqui, aqui e aqui

Por fim, eu sabia que NÃO tinha de esquecer nada. Ouvi muitas, muitas
e muitas vezes coisas do tipo: "ah, você logo, logo vai engravidar de
novo, e aí nem vai mais lembrar que isso tudo aconteceu!", ou "tire
tudo do bebê de perto de você, assim você não vai lembrar dele". Ora,
eu não precisava que nada me lembrasse meu filho, não precisava ver uma
roupinha de bebê ou uma mulher grávida pra começar a chorar. Até hoje,
se eu fechar os olhos, posso ver a carinha dele na última ultrassom e
meus olhos enchem de água. 

 Além disso, eu nunca tive (como ainda não tenho) a menor intenção de
esquecer que meu filho existiu. A gravidez foi, sem
dúvida, o período mais feliz da minha vida. Apesar de ter sido uma
fase muito difícil em diversos aspectos, nada que acontecia de ruim me
abalava, porque o que importava era que meu filho estava bem, estava
crescendo. Eu e meu marido, que sempre fomos muito unidos e sempre nos
demos bem, ficamos ainda mais juntos, e existia uma alegria entre nós
dois que era intermitente, não passava nunca. Amigos que estavam meio
afastados voltaram a manter contato frequente, porque queriam ter
notícias do bebê, e isso fez com que muita coisa que eu considerava
perdida fosse resgatada. Minha família (primos, tios) mora longe,
mas a chegada do primeiro sobrinho-neto fez com que todo mundo
voltasse a conviver. Por que motivo então eu deveria apagar essa
história? Porque assim seria mais fácil fazer a dor passar? 

 Claro que isso tudo, na época, não era consciente. Eu sabia que não
precisava ser forte, mas não sabia por que. Eu só sabia que não
precisava e pronto. 

 A terapia, nesse ponto, me ajudou a ir "organizando" as coisas na
minha cabeça e a entender melhor o que eu sentia e porque sentia. 

 Por exemplo: eu contei a história do shopping pra minha
psicóloga, me acabando de chorar, dizendo a ela que eu tava ficando
maluca, que eu não era mais eu mesma, que eu nunca mais ia conseguir
fazer nada. Ela olhou pra mim e disse que era muito normal e
compreensível o que eu sentia. Eu não conseguia escolher o que comer e
o que vestir tão somente porque, há cinco meses, todas as minhas
decisões eram tomadas em função do bebê. Eu escolhia o que comer a
partir do que eu sabia que faria bem para o bebê. Eu escolhia o que
vestir em função de um corpo que estava sendo modificado pelo
crescimento de um bebê. Aí, de uma hora pra outra, eu não tinha mais o
bebê, e precisava voltar a decidir por mim mesma. Era ou não normal
ficar insegura? 

 Outra coisa que aprendi durante esse período, e que até hoje me ajuda
demais, é a respeitar o que eu sinto. A gente (principalmente quem é
mulher) passa a vida inteira aprendendo a agradar os outros, a ser
gentil, educada, atenciosa, e acaba se acostumando a fazer isso mesmo
quando é preciso se violentar ou se sacrificar. Sai por aí sendo gente
boa com todo mundo e despedaçando o próprio coração, a troco de quê? 

Assim que perdi o bebê e voltei pra casa, passei um sms pras pessoas
que sabiam da minha gravidez (como lhe disse, a gente não fez segredo,
todo mundo do nosso convívio sabia). Fiz isso porque queria evitar
ligações de "feliz natal, como vai o filhote?" ou "feliz ano novo! mas,
como assim você perdeu o bebê?". Mandei logo o sms e entreguei o
celular pra minha mãe, dizendo que não queria falar com ninguém.
Afinal, eu ainda estava com dor, ainda tinha sangramento e - o pior -
estava emocionalmente um caco, sem condições de ouvir nem um "sinto
muito". 

Pois bem, no mesmo dia em que voltei do hospital, você acredita que
apareceu gente na porta da casa dos meus pais querendo "ver como eu
estava"? E que teve gente que ligou 5, 6 vezes, querendo falar comigo
"de qualquer jeito", pra ter certeza de que eu "estava bem"? Ah, eu
com certeza estava ótima, melhor impossível! 

Lembro que de meu marido falando: mas fulana ligou 7 vezes, mandou
mensagem, o que eu digo a ela? E eu: diga qualquer coisa, diga que eu
morri! Ora, eu precisava me proteger! As pessoas são tão "solidárias",
elas querem tanto lhe dizer como elas sentem muito, que esquecem do
mais importante, de respeitar o seu momento de dor, a sua privacidade,
a sua vontade de ficar só. 

Aos pouquinhos, eu fui retomando o contato com algumas pessoas.
Primeiro, por mensagem, depois por telefone e beeeeem depois comecei a
receber alguns amigos em casa. Mas só falei com quem eu quis. Na
verdade, durante muito tempo, eu só ia onde me sentisse segura, só
encontrava quem eu sabia que não iria me invadir. Eu só fiz o que
quis, ou melhor, só fiz o que pude. É, porque, na verdade, a questão
está muito mais em não PODER fazer certas coisas do que em QUERER. Por
exemplo: o avô de meu marido fez aniversário pouco tempo depois que
perdi o bebê, e a comemoração noutra cidade. Eu não fui, mas não
porque não quis. Não fui porque eu não conseguia me imaginar no meio
de um mundo de gente, com um monte de perguntas e conselhos e palavras
de conforto pra me dar, ainda que na melhor das intenções. Eu não
tinha a menor condição de passar por
isso, portanto decidi não ir. Sem culpa, sem remorso. Não fui e me
senti bem porque consegui respeitar os meus limites e, assim, não
aumentar meu sofrimento. Até hoje, tento agir dessa maneira.

Um comentário:

  1. te entendo perfeitamente amiga... pq os parentes nunca entendem o que a gente passa... poxa custa tentar não focar tanto neste assunto... mas aprendi a fazer como vc tbm fez... vou onde me sinto segura e onde eu quero ir... nem ligo pro que eles vão dizer... td que eu quero é ser feliz comigo mesma e seguir em frente... bjinhos seja vc mesma... sem se importar... bjs conte sempre com minhas orações ok... se cuida linda e boa semana.

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